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MIGRAÇÕES NO “FEMININO”: HOMENS QUE NÃO PARTEM, MULHERES QUE NÃO FICAM

As migrações, predominantemente protagonizadas pelos homens, promoveram ao longo da história novas reconfigurações econômicas, sociais e familiares. Os registos oferecem certa visibilidade numérica aos deslocamentos humanos e a historiografia registra seus impactos, contudo, há uma lacuna de estudos acerca de como as mulheres vivenciaram as migrações ou a ausência delas. Com que intensidade as mulheres reproduziram, adaptaram e/ou subverteram os valores patriarcais na ausência ou na presença dos homens? Compreender os movimentos migratórios no século XX em Évora, Portugal a partir da narrativa das mulheres é alvo da pesquisa desenvolvida no estágio pós-doutoral que fundamenta as reflexões desta apresentação. O estudo se apoia na antropologia feminista decolonial e utiliza a etnografia como ferramenta para investigar como, frente a ausência dos processos migratórios dos homens, as mulheres buscaram formas de reconfigurar os papéis sexuais, de exercerem protagonismos e de expandirem a capacidade de criar e gerir a vida. O estudo busca identificar quais transformações as tramas das relações familiares e sociais apresentam quanto ao caráter patriarcal destas relações. Tais perspectivas vêm favorecendo complexificações que potencializam a compreensão e destaque do papel das mulheres nas transformações sociais através das suas ações no âmbito familiar e social, bem como a construção de novas abordagens acerca da subalternidade como espaço de resistência e construção de novos lugares de emancipação e liberdade.