Vírus, linguagem e domesticação em ambientes multiespécies

Com a crise global deflagrada pela disseminação do coronavírus, experimenta-se uma mudança nos modos de relação social, como o confinamento, o distanciamento e o uso de equipamentos de uso pessoal para mediar o contato. Se o termo social é geralmente aplicado às relações humanas, não custa lembrar que as socialidades constituídas são mais que humanas. Há outros atores envolvidos – a começar pelo vírus –, em especial os animais, sempre apontados como fonte ou vetores das viroses pandêmicas, como a gripe suína e a gripe aviária. Enquanto em alguns debates públicos condena-se o contato íntimo com os animais, ou seu consumo, como nas feiras de Wuhan, perdemos a oportunidade de questionar modos mais arraigados de relação, em que os processos de domesticação são entendidos como controle e dominação, esquecendo-nos que afetamos e somos igualmente afetados, tanto quanto infectados, na coordenação de ações com outros organismos. A prática da falcoaria, em especial as relações estabelecidas no ambiente multiespécies do Parque dos Falcões, no estado de Sergipe, Brasil, oferece a oportunidade de distinguirmos, de modo mais promissor, os processos coontogênicos entre humanos e não humanos, que envolvem a linguagem, a co-domesticação, e o (inevitável) compartilhamento de nossos processos virais.


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