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VIOLÊNCIA, CONFLITO E IDENTIDADES NO PÓS-GUERRA CIVIL EM MOÇAMBIQUE: O CASO DO DISTRITO DE HOMOÍNE

A guerra civil em Moçambique (1977-1992), que opôs o governo da FRELIMO e as forças da RENAMO, foi marcada pela construção polissêmica do conflito em termos de agressão externa (seja no âmbito regional da África Austral, seja no âmbito da Guerra Fria) e em termos de conflito interno. No que diz respeito às causas internas da guerra, o conflito se configurou como uma série de oposições: entre as regiões Sul (identificada à FRELIMO) e Centro/Norte (identificadas à RENAMO), o que repunha uma divisão do período colonial; entre o universo urbano e “moderno” (FRELIMO) e o universo rural e tradicional (RENAMO); e, por vezes, as oposições assumiram contornos étnicos (como no caso do uso da língua Ndau da região Centro pela RENAMO, para se contrapor a uma alegada identidade Changana e sulista da FRELIMO). Em todos esses casos, produziram-se identidades para as partes em conflito, dando sentido às suas ações e violências durante a guerra. Um dos eventos críticos que marcaram a guerra civil em Moçambique foi o massacre de Homoíne, ocorrido em 1987 na vila-sede daquele distrito do Sul de Moçambique, permanece até hoje como memória coletiva e exemplar da violência contra civis no país, e ainda envolto em rumores sobre a sua autoria, que oficialmente é atribuída à RENAMO. Em pesquisas etnográficas realizadas em Homoíne entre 2005 e 2009, foi possível observar o quanto essas identidades construídas durante a guerra e a memória do massacre permanecem operantes no distrito, produzindo alteridades e tensões que atravessam as relações entre as populações do leste do distrito (onde se localiza a vila-sede e a administração) e do oeste (identificada como o “mato” rural e tradicional), dando sentido a várias experiências de violência cotidiana, e alimentando disputas político-partidárias (que, a nível nacional, resultam em ameaças da retomada da guerra). O trabalho proposto analisará como essas tensões e identidades remetidas ao período da guerra civil persistem em Homoíne.
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