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O Pety e a Fumaça Sagrada: Tabaco, Xamanismo e Cosmologia entre os Guarani Mbya

Este trabalho analisa de forma aprofundada o lugar do tabaco nas práticas rituais, no xamanismo e na cosmologia dos Guarani Mbya, tomando como eixo interpretativo privilegiado as categorias, concepções e modos próprios de entendimento nativos. Em contraste com abordagens biomédicas e moralizantes que associam o tabaco prioritariamente ao vício, à dependência e ao dano à saúde, entre os Mbya o pety (tabaco) e o petynguá (cachimbo) constituem elementos centrais e estruturantes da vida ritual, operando como instrumentos fundamentais na comunicação com Ñhanderu e com os ancestrais divinos, bem como nos processos de proteção, cura e fortalecimento do nhe’ẽ (alma/palavra-espírito). A fumaça do tabaco atua como mediadora ativa entre diferentes planos da existência, articulando concepções mbya de corpo, pessoa e mundo. Longe de ser uma substância periférica, o tabaco participa diretamente da constituição da pessoa, da produção de estados de atenção e escuta xamânica e da manutenção do equilíbrio cosmológico. Além disso, integra de maneira decisiva a transmissão intergeracional dos saberes xamânicos, sendo elemento pedagógico, relacional e cosmopolítico. Ao recolocar o tabaco no centro da análise antropológica, o trabalho contribui de modo crítico para os debates contemporâneos sobre xamanismo, substâncias rituais e ontologias indígenas, evidenciando a necessidade de deslocar perspectivas analíticas que tendem a marginalizar ou patologizar substâncias amplamente presentes e socialmente valorizadas na vida ritual ameríndia.

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